A Tragédia da Rua da Praia: O Primeiro Assalto à Mão Armada e a Lenda de Mário Cinco Paus
- Giulian Serafim
- 7 de abr.
- 4 min de leitura
A pacata Porto Alegre de 1911, então com cerca de 120 mil habitantes, era uma cidade que via seu centro se transformar em ponto de encontro de intelectuais, políticos e artistas. No entanto, a tranquilidade provinciana foi estilhaçada em 24 horas de puro caos, marcando a história local com o primeiro assalto à mão armada da capital gaúcha. No centro deste furacão, ergueu-se a figura mítica de Mário Cinco Paus (1890–1949), um jovem jornalista e futuro advogado que não apenas reportou o banho de sangue, mas perseguiu os bandidos de arma em punho e conduziu uma investigação brilhante.

O Crime e a Fuga Alucinada
O relógio marcava pontualmente 8h15 da manhã do dia 5 de setembro de 1911 quando quatro estrangeiros invadiram uma casa de câmbio na movimentada Rua da Praia (atual Rua dos Andradas). Tratavam-se de imigrantes russos com ligações ao anarquismo, fugidos das perseguições (pogroms) do Czar na Europa: Alexander "Sasha" Grauberger, Stefan Sedoreski, Pablo Pavlowsky e Feodor "Fedko". Durante a confusão do assalto, o jovem atendente do caixa, Alcides Brum, que tentou reagir, acabou sendo brutalmente baleado.

O que se seguiu foi uma das fugas mais rocambolescas e surreais dos anais criminais brasileiros. Os quatro criminosos saíram correndo em direção à Praça Quinze e, diante do Mercado Público, renderam um cocheiro, roubando sua carruagem. Seguidos por uma multidão de curiosos, eles atiraram para o alto para abrir caminho e entraram na Rua Voluntários da Pátria, um reduto de camelôs e das chamadas "tias e primas" — as meretrizes da cidade. A fuga na carruagem terminou de forma abrupta quando colidiram de frente com outra carroça, impacto que resultou na morte do cavalo.
Imparáveis, os assaltantes embarcaram em um bonde elétrico que passava no momento.

Sob a mira de revólveres, ordenaram que todos os passageiros descessem — exceto três senhoras, que foram poupadas — e forçaram o motorneiro a dirigir em marcha ré rumo à Zona Norte da cidade. O condutor, num ato de sagacidade, sabotou o sistema elétrico do veículo, forçando os bandidos a continuarem a pé pelos trilhos. Ainda em fuga, a quadrilha sequestrou o jovem leiteiro Antônio Bottaro, obrigando-o a conduzi-los em sua carroça até os arredores do Rio Gravataí, onde finalmente se embrenharam no matagal para se esconder da polícia.
A Atuação Implacável de Mário Cinco Paus
Enquanto a polícia batia cabeça e organizava o cerco em Gravataí, Mário Cinco Paus, repórter do jornal O Diário, mostrava de que matéria era feito. Ele foi testemunha ocular do assalto na Rua da Praia e, demonstrando imensa coragem, saiu em perseguição aos criminosos de arma em punho antes mesmo de as autoridades chegarem.
Mas Mário não era apenas um homem de ação; ele possuía um faro investigativo formidável. Enquanto a polícia equivocadamente prendia judeus locais sob a falsa suspeita de envolvimento no crime, Mário conduzia a sua própria investigação paralela, obtendo resultados muito superiores aos das forças da lei. Foi Mário quem descobriu que as pistolas utilizadas pelos bandidos haviam sido vendidas a eles dias antes pelo seu próprio cunhado.
Aprofundando-se no caso, o jornalista interrogou um trabalhador braçal estrangeiro chamado Yurian Kirienko, o que lhe permitiu descobrir a forte ligação dos assaltantes com o movimento anarquista proletário. Com faro de detetive, Mário conseguiu estabelecer a verdadeira identidade do líder do bando, "Sasha", e chegou ao ponto de localizar e entrevistar a família do criminoso em Porto Alegre antes de qualquer ação policial. Suas reportagens detalhadas tiveram um impacto estrondoso e transformaram o caso em uma verdadeira sensação na imprensa.
O Desfecho Macabro das "8h15"
O desfecho da caçada foi marcado por uma estranha e lúgubre simetria de horários. Na madrugada e início da manhã do dia 6 de setembro, a polícia, que passara a noite em tocaia na mata em Gravataí, cercou os bandidos em meio à neblina. Um cabo que tocava a corneta acabou se perdendo e deu de cara com um dos russos; o criminoso atirou à queima-roupa, mas errou, alertando o restante da tropa. Seguiu-se um fuzilamento impiedoso, e os quatro assaltantes foram mortos exatamente às 8h15 da manhã — exatas 24 horas após o início do assalto.
Numa atitude que gerou forte comoção e críticas severas, a polícia expôs os cadáveres ensanguentados em carroças, desfilando-os pelo centro da capital em meio a fogos de artifício, como troféus e exemplos macabros. Para coroar a trágica coincidência, o caixa baleado, Alcides Brum, que agonizava na Santa Casa, faleceu no dia 7 de setembro, também exatamente às 8h15 da manhã.
A Toga Autodidata e a Defesa das Meretrizes
O contato intenso de Mário Cinco Paus com as delegacias e a cobertura de casos criminais complexos despertou nele uma nova paixão: a Justiça. Em um feito admirável, Mário mergulhou nos estudos jurídicos de forma inteiramente autodidata. Sua dedicação foi tamanha que ele obteve conhecimento suficiente para ser habilitado como "advogado provisionado".

Nascia ali mais do que um brilhante repórter policial; nascia um dos criminalistas mais requisitados e respeitados de sua geração em Porto Alegre. Mário Cinco Paus ganhou enorme notoriedade e carinho popular por se tornar um benfeitor e defensor fervoroso das populações de baixa renda.
Um dos capítulos mais emblemáticos de sua carreira no Direito, que consolidou sua fama de guardião dos marginalizados, envolveu exatamente as "tias e primas" que testemunharam a fuga dos russos na Voluntários da Pátria. A polícia de Porto Alegre havia emitido uma ordem proibindo as meretrizes de permanecerem nas ruas, em frente às suas próprias casas. Comprando a briga das profissionais do sexo, Mário Cinco Paus assumiu o caso, desafiou as autoridades e conquistou judicialmente o direito para que as meretrizes pudessem permanecer nas calçadas diante de suas residências.
Mário Cinco Paus faleceu em 1949, mas deixou um legado tão marcante de bravura, sagacidade investigativa e defesa dos excluídos que, hoje, seu nome batiza merecidamente uma travessa no Centro Histórico de Porto Alegre, eternizando a memória do homem que enfrentou balas, furos de reportagem e a própria polícia em nome da justiça.




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